20080722

O BUSÍLIS É OUTRO

Ensino Básico reorganizado

O ensino das áreas curriculares não disciplinares nos 1º e 2º Ciclos vai mudar no próximo ano lectivo. A reorganização do currículo pretende "permitir a redução do número de professores por turma", refere o despacho do secretário de Estado da Educação, Valter Lemos. Os sindicatos acusam o Ministério da Educação de não ter negociado as alterações e exigem esclarecimentos sobre as consequências para o emprego docente.
A área de estudo acompanhado deverá ser assegurada pelo professor titular de turma, no caso do 1º Ciclo, e, de preferência pelos docentes dos grupos de recrutamento de Língua Portuguesa e Matemática, nos 2º e 3º Ciclos. Aos directores de turma será atribuída, nos 2º e 3º Ciclos, a área disciplinar da formação cívica.
O despacho determina que até ao 9º ano devem ser desenvolvidas, na área de projecto e formação cívica, várias competências de Educação: Saúde/Sexualidade, Ambiental, Consumo, Sustentabilidade, Empreendedorismo, Igualdade de Oportunidades, Solidariedade, Rodoviária, Media, Direitos Humanos e Dimensão Europeia. Os alunos do 8º ano vão ter 90 minutos por semana de aulas TIC. Já os do 5º ano deverão ter cinco blocos de 90 minutos, distribuídos pelo ano lectivo, do módulo de Cidadania e Segurança.
O ano lectivo começa entre 10 e 15 de Setembro e termina a partir de 9 de Junho de 2009 (9º, 11º e 12º) e 19 de Junho (restantes anos). (Notícia Correio da Manhã)


"Com esta medida, o Governo pretende reduzir o número de docentes, de forma a facilitar a transição das crianças para o segundo ciclo, uma vez que no primeiro estas lidam apenas com um ou dois professores."

"...em Formação Cívica e em Área de Projecto, os docentes deverão abordar com os alunos um conjunto vasto de matérias que vão desde a Educação para a Saúde e Sexualidade até à Educação Ambiental, passando por temas como o consumo, os direitos humanos, a igualdade de oportunidades ou a educação rodoviária." (Pode ler-se em notícia do Público sobre o mesmo assunto)


Permitam-me uma reflexão sobre o assunto:

O Ministério da Educação pertende reduzir o número de professores por turma, fazendo atribuir várias disciplinas a um só professor. Segundo a notícia do Público, "O regime de professor por área, e não por disciplina, já estava previsto na Lei de Bases do Sistema Educativo, aprovada em 1986, mas o Ministério da Educação considera nunca ter sido aplicado nas escolas de forma generalizada, nomeadamente devido a uma “prevalência de critérios de natureza administrativa em detrimento dos de natureza pedagógica”. Veio fazê-lo agora. Não será isto uma medida "ao contrário"? Não deveria o Ministério fazer atribuir as disciplinas segundo critérios de natureza pedagógica e científica?


Mas o problema, do meu ponto de vista, ultrapassa esta questão.


Talvez devesse o Ministério pensar em reduzir o número de professores por turma, reduzindo o número de disciplinas. Não, não estou a propor conduzir professores para horários zero, nem para o desemprego. O que eu quero dizer é que, se cada professor, dentro da disciplina que lecciona, tivesse tempo em termos de carga horária, poderia de forma abrangente tratar temas que são propostos em Estudo Acompanhado, Formação Cívica. Mas, como há disciplinas que têm de carga horária apenas 90 minutos semanais, tal não chega nem de perto para desenvolver um trabalho sério nem em relação ao programa da disciplina.


Não, Srs do Ministério. Os alunos têm muitos professores porque têm muitas disciplinas!


Para além disso, e porque nós já percebemos que a Escola passou a desempenhar um papel social, os alunos passam tempo demais nos estabelecimentos de ensino. Deixaram de ter tempo para brincar, para conviver. Talvez também por isso brinquem tanto dentro das salas de aula...


Questões como Solidariedade, Igualdade de Oportunidades, Direitos Humanos, Consumo, deveriam os nossos alunos aprendê-las na "Escola da Vida", mas, como quando eles olham à sua volta nada disto conseguem vislumbrar, essa árdua tarefa passa a ser da responsabilidade dos professores, uns lunáticos, na cabeça deles, que falam de coisas que não existem!

Os pais em casa, pouco tempo têm para eles: ou estão ocupados a trabalhar, ou ocupados a pensar como podem arranjar trabalho, ou ainda ocupados a fazer contas à vida para ver se os magros salários chegam para pagar as contas. O resto que a sociedade lhes tem para oferecer são estratégias e manobras de diversão para ver se o pessoal não pensa muito, não questiona muito (observe-se os programas de entretenimento que as nossas televisões oferecem e as mensagens que muitas vezes fazem passar...)

Quanto a Rodoviária? Só se forem os horários dos transportes que muitos deles têm de apanhar muitas horas antes para chegar à escola ou fazer o percurso contrário até casa (aonde, no Inverno, chegam já de noite). No que me diz respeito, só tirei a carta de condução já adulta e, que eu saiba, ainda não cometi erros de maior...

Muito mais havia a dizer...

1 comentário:

Moriae disse...

Excelente texto/reflexão Hurtiga!
Abraço,
M.