20090629

A verdadeira história da avaliação dos professores

[recebido por email]



A história que vos conto na primeira pessoa passou-se numa escola qualquer.



No inicio de mais uma aula houve um grupo de 3 ou 4 alunos que se dirigiram a mim.

Perguntaram-me porque é que andava tão triste e aborrecido.

Não lhes pude mentir.

Respondi que era por causa da avaliação dos professores, mas que não tinham com que se preocupar, que isso era problema de adultos.

Eles retorquiram que eles também eram avaliados e que não viam qual era o problema em o professor ser avaliado. Percebi que podia ali, naquele momento, fazer com eles uma pequena brincadeira de criança.

Mandei sentar e pedi silêncio à turma toda, para fazermos um pequeno jogo que não levaria mais de cinco minutos da minha aula.

Disse à turma que na próxima avaliação da Páscoa em vez de os avaliar pelo trabalho e aprendizagens desenvolvidas resolvi mudar para um novo modelo de avaliação.

Eles perguntaram logo: então como vai ser?

Peguei num pau de giz e escrevi no quadro:

Cinco-

Quatro-

Quatro-

Quatro-

Quatro-

Quatro-

Para que é isso? Perguntaram eles. Então só há um cinco? E esses quatros são para quem?

Prestem atenção, disse eu. Abri o livro de ponto na página das fotos dos 20 alunos da turma e fechando os olhos apontei com o dedo ao acaso. Abri os olhos e disse: João.

Diga, disse ele surpreendido.

Vem ao quadro e coloca o nome dos teus colegas que merecem estas notas na Páscoa.

Não, não vou, disse ele, o professor é que sabe, para isso estudou e tem experiência.

Tens que vir senão marco-te falta, obviamente a brincar.

Mas tem mesmo que ser? Voltou ele.

Sim.

Levantou-se e aos poucos preencheu a lista com os nomes daqueles que ele entendeu.

Perguntei eu de seguida à turma: estarão bem atribuídas as notas?

A turma disse em coro um afinado Não.

Perguntei de novo à turma: quem depois das escolhas do João continuava a ser amigo dele como era antes?

Ninguém se manifestou, um silêncio de morte invadiu a sala.

Para terminar perguntei ao João: como te sentias contigo e com os teus colegas se este jogo fosse verdade? E eles contigo?

Respondeu: tristes e aborrecidos.

Estava dada a primeira lição de vida da aula.



Espero que o João ou outro aluno nunca venham a experimentar este jogo na realidade. Para bem do bom relacionamento interpessoal nas suas futuras profissões, numa sociedade em que as relações humanas são desvalorizadas em detrimento das tecnologias obsoletas que nos metem à frente.

Para os adultos deixo as 3 principais razões pelas quais me sinto triste e aborrecido com este modelo de avaliação:

1º *(e desculpem os meus futuros avaliadores)* Porque não reconheço legitimidade nem competência em nenhum colega meu para qualificar ou quantificar o meu desempenho enquanto professor;

2º *(e para desagrado de alguns) *Porque não me sinto nem superior, nem inferior em nada comparativamente aos meus colegas de profissão, independentemente da sua experiência ou situação profissional.

3º *(em sinal de desagrado com o acomodar de outros) *Porque no lugar de avaliador, seria incapaz de distinguir os meus semelhantes sabendo que avaliaria uns em prejuízo de outros, pois quer queiram quer não, é do que se trata quando lidamos com um modelo por quotas. Aqui assumia as consequências pessoais da não avaliação ou classificaria a todos com nota máxima, porque só assim poderia voltar a deitar a cabeça na almofada à noite com a consciência tranquila.



Note-se: As minhas aulas estarão abertas a observação, não 2, nem 3 vezes por ano, mas sim tantas, quantas vezes nelas eu estiver> presente.



Assinado: O professor que entregou os objectivos individuais chantageado pela impossibilidade de acesso à carreira.

O professor que tem dezenas de dias de faltas por doença, umas por esse motivo, outras porque para além de professor é um ser humano com vida para além da escola, sim porque há vida para além da escola, alguns é que a não têm.



[repassa!!!]

3 comentários:

Anónimo disse...

O texto enferma de vários erros de raciocínio analítico e lógico e planos de análise:

De facto os alunos do meu caro professor não poderiam fazer uma avaliação do trabalho dos colegas porque:

1- os alunos não eram detentores dos critérios de avaliação
2- não estão legalmente mandatados para o efeito
3- podem não ter maturidade e treino para o fazer
4- não conhecem a matéria a avaliar

(Crítica: no caso dos professores apenas não se verificam, por vezes, a 3ª e a 4ª alíneas.
Mas um bom professor deve também dotar os alunos de raciocínio crítico e analítico e critérios para avaliar o seu desempenho e o dos colegas. Meninos que separam a avaliação da amizade, já não amuam e continuam amigos, logo… )

1º *(e desculpem os meus futuros avaliadores)* Porque não reconheço legitimidade nem competência em nenhum colega

1- A legitimidade não depende de si (era só o que faltava), já que é conferida a alguém pela lei. Estamos em democracia e chama-se a isso o primado ou soberania da lei (a justeza desta é que é criticável)
2- Pensar que as competências dos seus colegas são iguais às suas é um ideal igualitário que, com o tempo, vai verificar só existir na sua cabeça

2º *(e para desagrado de alguns) *Porque não me sinto nem superior, nem inferior em nada comparativamente aos meus colegas de profissão, independentemente da sua experiência ou situação profissional.

1- Esta tese parece-me arrogante, inconsciente, senão ignara e contém um erro conceptual básico. Você está a comparar-se com os seus colegas em dois planos diferentes.
a. A si coloca-se no plano do ser (humano) e aí sim é igual
b. Aos seus colegas no plano da experiência e situação profissional. Se na situação profissional tem razão porque até aqui ela não se relacionou com a competência, o mesmo não se pode dizer da experiência. Aí por mais que queira não é igual aos seus colegas, seja o que for que isso implique, lamento desiludir.
Portanto o que você está a dizer é algo como isto. Como eu sou um ser humano dotado de direitos universais sou igual a todo o mundo, logo ninguém me pode avaliar. Pois, mas estes direitos até um recém-nascido tem, até os seus alunos que você afinal avalia.

3º *(em sinal de desagrado com o acomodar de outros) *Porque no lugar de avaliador, seria incapaz de distinguir os meus semelhantes
1- Outro erro conceptual. Você enquanto avaliador não está a avaliar os seus semelhantes (pessoas) está a avaliar o seu desempenho, o seu trabalho, a sua conduta profissional, a qual é regida por um conjunto de direitos e deveres, como qualquer trabalhador.
2- Como, pelos vistos consigo é preciso concretizar, vamos lá. Você tem duas empregadas domésticas.
a. Uma é zelosa, rápida, pontual, perfeita, honesta e cumpre as tarefas que lhe deu.
b. A outra não é pontual, não é rápida, rouba-lhe tudo, deixa tudo ainda mais sujo, nunca faz o que lhe manda e parte os seus bibelôs.

Conclusão: Como você não tem competência e não tem direito a avaliar o trabalho das duas (elas também não se conseguem avaliar uma à outra), deve respeitar a igualdade no pagamento salarial…

Por outro lado, como não quer quotas, você faz a promoção das duas ao mesmo tempo, ou seja aumenta os salários a ambas por igual. Afinal quem é você para distinguir dois seres humanos iguais!

Ainda acha que está a ser justo??????
SE teve a lucidez de verificar que está a ser injusto verificou para quem é que a sua igualdade foi injusta?????? Pois foi, para a melhor das empregadas!!!!!

Assim, é provável que esta verifique que o seu zelo não é compensado e se torne (se conseguir!!!) igual à outra.
É ESTE O PAÍS QUE TEMOS

BOA SORTE PARA SI. JÁ QUE OS SEUS ALUNOS…ENFIM!

Nota Final - Parece que os professores (onde estão indivíduos desde os que tiveram quase 20 aos dezes dos cursos – os quais fizeram a copiar) são todos a nata da sociedade e do saber. Você será um bom sindicalista, mas lamento dizer que nem todos nos deixamos manipular por argumentos falaciosos e mal colocados se não intelectualmente desonestos.

Luta Social disse...

Olá Anónimo,
Não fui eu que escrevi o texto, embora o tenha postado. Agradeço a sua crítica. Ela tem em conta certos aspectos, embora deixe de lado outros.
Na minha opinião, pese embora a pertinência dalguns argumentos que apresentou, coloco o problema ao nível não da lei, mas sim do relacionamento intra-grupo. Como é fácil de ver entre alunos ou entre companheiros de uma mesma profissão, sempre houve um código de solidariedade, em que alguns, mesmo sabendo quem cometeu tal ou tal disparate se calam, aceitando um castigo colectivo de pfreferência a serem denunciantes; a tal obriga a ética do grupo! Não digo isto para defender que se deve ocultar propositada e intencionalmente as faltas dos outros, sobretudo se estas assumirem repercussões negativas noutros, na sociedade, etc.
Mas acho importante reforçar o espírito de equipa e de entre-ajuda dos humanos. A começar pela escola. Não me vou alongar sobre os fundamentos científicos, filosóficos e éticos desta posição; vou apenas dizer que do ponto de vista prático é muito mais gratificante e com resultados globalemtne positivos trabalhar numa equipa, em que a nossa contribuição para o colectivo tem um imediato feed-back dos restantes elementos do mesmo colectivo, do que uma falsa equipa, ou seja a que se mantém porque tem de agradar ao chefe, ao superior hierárquico, onde o progresso de cada um se faz em detrimento do outro (quotas), em que os objectivos são resultantes de imposições exteriores autoritárias e não do consenso que emanou de uma discussão.
A escola pública está em perigo de morte, pois andam a tentar injectar nas práticas dos docentes a competição mesquinha, individualista, em vez de promoverem a qualidade pelo estímulo à cooperação, à emulação e matando a liberdade de ensinar e aprender, ao fim e ao cabo.

Ser sindicalista não se depreende do texto afixado... realmente não sei se a pessoa que o escreveu é sindicalista...Mas isso tambémn não é argumento pertinente para a discussão.
Caro anónimo, antes de insinuar intenções manipulatórias nos outros, tente não fazer uma cruzada moral com os seus argumentos; afinal eu poderia dizer também que os seus argumentos são muito falaciosos, senão mesmo intelectulamente desonestos. Mas não digo, digo apenas que tem toda a legitimidade para defender aqui o seu ponto de vista e que seria melhor fazê-lo assinando, dizendo quem é; afinal não deve ter vergonha da sua opiniâo, pois não?

Manuel Baptista

Anónimo disse...

Agradeço as suas palavras que me fizeram reflectir. Devo dizer que compreendo, embora não concorde.
Lembro apenas que tentei fundamentar os meus argumentos (lei, direitos humanos, estatuto profissional, etc) que foi o que você não fez.
Quanto a desculpar as faltas dos outros...eu chamo-lhe desculpar quem está a violar os meus direitos.
E competição eu só conheço uma: comigo, pela minha própria melhoria.
Sabe porque é que não assino? Por receio e falta de liberdade...