20090629

Reflexão política*

[*Escrito em Março deste ano, considero que conserva toda a frescura... ]

A política portuguesa parece-se cada vez mais com um bordel em que a patroa (o grande capital, principalmente estrangeiro) põe e dispõe, jogando com as misérias e ódios vesgos de cada uma das meretrizes em relação às suas colegas.

Vem isto a propósito da aproximação de mais um ciclo de eleições, num país «agitado» por declarações de pacotilha dos políticos de todas as cores, destinadas e atrair os que conservam uma falsa esperança, dos que gostam de ser enganados. Refiro-me àqueles que depositam esperança nas urnas, como se o desenlace desta continuada e vil tristeza estivesse nuns mágicos quadradinhos de papel, com as não menos mágicas cruzinhas.

Para que se perceba a inanidade deste «raciocínio», basta atentar no seguinte:O PS de Pinto de Sousa vai arrecadar um número significativo de votos, o suficiente para ser o partido mais votado. O partido que – dentro deste sistema – é convidado a formar governo. Seja qual for a modalidade, teremos uma continuidade de políticas de submissão aos ditames dos grandes grupos.

Mais, esta continuidade será assegurada pelo PS. Teremos de certeza um governo PS: quer sozinho, com renovada maioria absoluta, quer em coligação com outra ou outras forças políticas, muito provavelmente forças à sua «direita», mas que também podem ser à sua «esquerda», o que não muda nada de substancial.

Aqueles que têm a ilusão duma política «anti-capitalista» que não seja simultaneamente e francamente anti-autoritária, que percam as suas ilusões, pois o PCP ou o BE sempre se posicionaram ao longo dos 4 anos de governação PS como rivais entre si, pela hegemonia dos trabalhadores e como «líderes» da oposição parlamentar de esquerda, nunca como uma opção alternativa de governo.

Para que isso tivesse a mínima credibilidade, eles teriam de se aproximar e fazer as pazes entre as várias facções do «comunismo» autoritário (as inúmeras facções do marxismo leninismo, desde os nostálgicos do estalinismo puro e duro, do maoismo, do guevarismo/castrismo, do trotsquismo de diversas obediências, até aos diversos marxismos ditos revisionistas). O que se viu pelas bandas quer do PCP, quer do BE, foi o oposto, um acirrar de rivalidades, numa estratégia pseudo-popular, mas na realidade, sectária no mais puro estilo «PREC» de há 30 ou mais anos atrás.

Tudo somado, eles contentam-se em ser forças «de oposição» institucional, manobrando sindicatos, com um ou outro lugar no aparelho de estado central, nas autarquias, etc., mas sem a responsabilidade total do poder político.Eles sabem perfeitamente que não seriam autorizados a exercer uma parte do poder, sem terem de ceder em muitos aspectos da sua ideologia caduca. Teriam de se converter completamente em «esquerda neo-liberal», como voz «crítica» dum PS que detém a medalha da submissão ao grande capital, já sem laivos sequer de socialismo ou de social-democracia.

A pequenez da política lusa acima resumida demonstra cabalmente a minha tese de que existe um país neo-colonial, com uma ou várias potências europeias (antes o Império Britânico, hoje o neo-império da UE, sob tutela dos USA).

Perante isto, que é uma evidência, que têm a dizer os senhores e senhoras que se arvoram em «analistas» e «fazedores de opinião»? Nada; continuam a assobiar para o lado, pois eles sabem que há verdades inconvenientes; nem que seja para «negar» os meus argumentos, preferem estar calados, pois seria muito complicado sair fora das «regras» do jogo.

Regras não ditas, mas por todos/as bem compreendidas. Regra nº1: Vale falar do acessório, nunca do essencial. Pois o essencial implica a denúncia dos seus verdadeiros patrões e eles/elas não querem desagradar aos mesmos, têm destes o sustento, o tacho e a promessa de participar no rega-bofe… à custa dos mesmos de sempre, dos excluídos, dos espoliados, do «bom povo» que serve para ir, «cheio de fé», votar nas próximas eleições.

É assim que se mantém a choldra, a chusma, bem-educada, polida, sem nada que a distinga da intelectualidade de Paris, Roma, Londres ou Nova Iorque… mais outro aspecto típico das burguesias dos países neo-coloniais.

Mas, infelizmente, quem não tem nada a ganhar com este jogo ainda continua a deixar-se embalar pela ilusão de que algo de novo possa surgir em resultado do circo eleitoral.

Não há salvação dentro do regime, nem sequer remendo, porque o regime está podre. Não tem salvação ou remendo, porque o próprio regime impede a transformação necessária. Não há transformação possível sem uma mudança de mentalidades e esse primeiro passo deveria partir das «elites».Mas o que são as elites neste país? Serão verdadeiras elites ou apenas uma casta parasitária que pavoneia as suas vacuidades como se fosse pensamento?

Num país sugado até ao tutano por mais de dois séculos de domínio neo-colonial, não existe burguesia empreendedora, apenas estado-dependente, apenas parasitária!

Neste país neo-colonizado não existe tão pouco classe trabalhadora autónoma, independente, produzindo o seu discurso, com os seus contra-poderes próprios; temos antes uma classe trabalhadora escravizada por obra e graça do reformismo, quer ele se exprima em partidos ditos «operários» ou em centrais sindicais completamente vendidas, porém arvorando os símbolos e aparências da luta de classe, para melhor entregar os trabalhadores, de pés e mãos atados, aos patrões e ao governo.

Não podemos esquecer que os sindicatos em Portugal se comportam como uma espécie de guarda avançada dos partidos que os manobram.
Um país neo-colonial que se afoga no marasmo porque não quer reconhecer os seus enganos profundos, porque prefere continuar a viver na «doce ilusão», em vez de construir a sua própria sociedade civil independente, autónoma dos partidos e do estado.

Não existe cultura nem vida democrática; tudo é absorvido pelo espectáculo do «desporto rei».
O futebol é o local geométrico onde se cruzam todos os discursos, todas as intrigas de poder, o imaginário colectivo de um povo suspenso na bota do jogador super-heroí que vem «resgatar» a «honra» de um povo… O super-homem que o vai fazer vibrar, vivendo, nas glórias e desventuras do seu herói futebolístico do momento, a pseudo-afirmação de uma identidade «nacional», há muito alienada, de qualquer maneira.

Basta ver a subserviência caricata dos portugueses a tudo o que seja estrangeiro, para se compreender que eles estão totalmente descrentes da sua identidade ou só a afirmam como servos dos «poderosos», muito orgulhosos de serem considerados um «povo gentil, afável, hospitaleiro». Basta-lhes viver na apagada e vil mediocridade. Portugal, como local de férias barato, para a classe trabalhadora dos países mais ricos do continente europeu. Tudo isto configura o complexo neo-colonial deste povo.

Apenas a sua tomada de consciência poderia ser ponto de partida para sacudir o jugo bissecular da opressão, mas isso não pode ser realizado desde o cimo por uma «elite» ilustrada, que não existe.Há apenas uma «burguesia compradora», ou seja, que aproveita as migalhas da exploração deste povo, exploração essa que continua a beneficiar os de sempre: grandes consórcios capitalistas internacionais, grandes potências que se servem de Portugal como de um súbdito (veja-se o caso dos Açores e de todas as bases e interesses da NATO).

Portugal efectivamente pertence aos se aproveitam das pescas, da agricultura, dos minerais e de todas as actividades produtivas para fazerem chorudos negócios.

Quando já nada restar das riquezas naturais deste país, ainda haverá para explorar um povo semi-analfabeto, o eterno emigrante, capaz de trabalhar sem pedir muito, para voltar um dia à sua aldeia ou vila, para aí viver a sua reforma como um fidalgo, não lhe interessando o que aprendeu na estranja…

Não existe, decerto, qualquer solução colectiva dentro deste regime. Apenas com a destruição completa, total e irreversível do sistema de exploração capitalista, poderemos viver como um povo, entre os restantes povos, fraterno e capaz de viver por si, amando sua história e seu território, mas de um amor não possessivo, não egoísta. Como o amor de uma mãe orgulhosa por ver seus filhos e filhas capazes de perpetuar a sua memória, capazes de continuar e enriquecer uma cultura milenar em todos os domínios, das artes às ciências, da produção material à produção espiritual.

Temos portanto de ter um enorme desejo de realização dessa pátria utópica mas alcançável, de uma pátria realmente de todos. Isso só pode ser possível na ausência de capitalismo, experimentando formas colectivas de gestão (autogestão) generalizadas a todas as áreas da produção e da sociedade.Sem esta perspectiva, não existe política de libertação, de emancipação, de autonomia e de poder democrático da classe trabalhadora.

Espero que critiquem muito este escrito, pois a discussão é necessária e eu não estou fechado a ouvir e ler vossos contra-argumentos. Estou profundamente convencido da veracidade do quadro que pintei acima e também tenho real esperança nos caminhos que aponto. Mas sei que as soluções aos graves problemas referidos são necessariamente colectivas e, por isso mesmo, anseio ler as vossas opiniões.

Solidariedade,
Manuel Baptista

4 comentários:

mcgs07 disse...

Texto interessante com muitas pistas de reflexão. Mas como sair disto? Acabar com o capitalismo parece-me utópico de facto, pois onde se tentou, digamos assim, o resultado foi uma opressão igual ou mais sinistra por parte de regimes ditatoriais em nome do mítico proletariado, alguns construídos através de guerras civis sangrentas e seguidos de sangrias violentas de toda a oposição. Que me diz da via/experiência reformista de Obama? Eu defendo um capitalismo regulado, ainda penso ser possível e parece-me a forma mais viável e pacífica de mudar as coisas. As mentalidades são algo difícil de definir e quanto a mudá-las, parece-me um processo lento que a ser feito não pode ser desenhado por nenhum grupo de iluminados, é um processo espontâneo, ninguém sabe como evoluirá pois em democracia essa mudança de mentalidades deve resultar da franca troca de ideias e respeito por todas as formas de ler o mundo, incluindo as daqueles que defendem a iniciativa privada e o liberalismo. Acho que há formas de vivermos em ambiente de iniciativa privada sem o "regabofe" a que se tem assistido ultimamente na esfera financeira mas não só. Concorrência regulada é o que defendo. Mas regulada mesmo e não "arbitrada" pelos próprios agentes das fraudes, pelos chicos espertos. Há-de haver uma forma de regular e fiscalizar a sério, digo eu.

Anónimo disse...

mcgs07: pessoalmente, não acredito num capitalismo virtuoso, nem num capitalismo verde, nem no reformismo do Obama. Acho que é necessário perceber um pouco o que se passou no séc. XX, perceber que a fraude que se chamou comunismo ou socialismo... foi isso mesmo; foi apenas um capitalismo de estado; com períodos de guerra civil, de estado totalitário, de repressão das liberdades, etc. Agora, isso tem sido vendido como sendo o comunismo ou socialismo. Podes crer que é essa a maior das fraudes intelectuais dos políticos de todos os quadrantes!
Sou contra a visão idílica de que poderíamos todos ser felizes debaixo de um capitalismo de rosto humano. Porque essa sim é completamente utópica. Está contra a lógica do capitalismo. O capitalismo hoje não pode gerar senão sofrimento. As pessoas é que têm de encontrar uma solução, não é uma vanguarda iluminada que lhes vai apontar o caminho. Mas eu tenho a certeza que o meu povo eticamente (portanto profundamente) é socialista. Quando digo socialista, não me estou a referir à clique que está no poder, mas à grande corrente histórica com muitas ramificações que se designa por «socilaismo».
Enfim, podemos encarar uma «outra terceira via», não do reformismo social-democrata, mas sim do socialismo libertário que nunca foi ensaiado em larga escala, foi sempre afogado no sangue por uns e por outros.
Mas talvez não possamos nos atrasar mais na invenção do socialismo do século XXI, porque a crise ecológica, vai «acelerar» a história (ou será que vamos para a extinção, como alerta Jared Diamond ou outros...)
manuel Baptista

mcgs07 disse...

Infelizmente não partilho desse optimismo em relação à ética socialista do nosso "povo". A norte do Tejo , pelo menos. Há muito tempo que não tenho contactos com o Alentejo onde me pareceu, em 1976, muito ausente a vontade da posse de terras, as ocupações não vingaram, as cooperativas sobreviveram algum tempo, sobretudo as que pagavam renda aos antigos proprietários. O povo alentejano nesses anos, nos anos setenta queria emprego, não necessariamente lotes de terra (como pensou Sá Carneiro) e muito menos latifúndios para gerir (kolkoses e sovkoses) como pensou o PCP. Mas nas zonas de minifúndio nunca me foi dado a ver socialismo algum, talvez uma espécie de sentimento de posse colectiva tivesse durado algum tempo na exploração colectiva dos baldios que vieram ao longo dos anos a ser tomados e geridos em grande parte pelas câmaras municipais tanto quanto sei. Mas ao tempo que tudo isso foi, já lá vão uma ou duas gerações. A maioria do "povo" está nas cidades e no litoral e portanto haverá talvez outras ideologias incipientes próprias de uma "classe média" que tem muitos tiques de novo-riquismo. Não , não estou nada optimista quanto ao desejo de partilha dessa massa heterogénea chamada "classe média" que é quem decide nas eleições qual o partido que fica e qual o que vai de férias. Vejo um povo unido talvez pela tristeza e frustração. Vejo um povo cheio de recursos para se safar a pagamentos obrigatórios para efeitos de fruição colectiva, vulgo impostos, cheio de truques no chamado chico-espertismo ou esperteza saloia. Um povo que em grande parte (demasiada) se identifica simultaneamente com Salazar na "honestidade" e na "mão de ferro" e com Sócrates no improviso malabarista de "fazer pela vida" e também na "mão de ferro". Vejo um povo com sentido de humor ainda apurado que é talvez a sua melhor característica, se entretanto o humor alvar e imbecilizante de alguns programas dos canais de grande audiência o não destruírem por completo.
Não estou a ver um novo modo de produção socialista e de rosto humano, nenhuma experiência significativa nem mesmo incipiente, não estou a ver em lado nenhum, talvez a extinção seja mesmo mais provável ou a continuação de um sistema cuja lógica, de facto, se nada se fizer enquanto se espera pelo novo paraíso, passa pela destruição maciça de recursos e até pelo genocídio nalgumas partes do mundo. Concordo que a lógica do capitalismo na sua versão desenfreada a isso conduz. Por isso mesmo, para mim, urge apoiar todas as tentativas sérias e sinceras de regular o capitalismo selvagem e obrigá-lo a fazer compromissos. Não interessa ao empresário pequeno, médio e mediano investir em ambientes de pré revolução sobretudo em determinadas áreas do mundo. Esses formam grande parte da classe média. A uma parte importante do grande capital mundial mais ou menos anónimo, mais ou menos reunido em clubes até convém que haja revoluções, guerras civis e regionais. Elas são óptimas para o negócio das armas mas não só. Para além de permitirem uma medição de forças na divisão dos recursos mundiais entre as grandes potências do “centros” antigos e emergentes, ajudam a manter a norte e a “oeste” o povo amestrado e amedrontado evitando comprometer-se em grandes acções colectivas para que não haja convulsões que ninguém afinal quer….
Mas a norte , bem no centro do capitalismo mundial, o povo amestrado, desgraçado, não politizado e ignorante (?) que nunca vota, dá-lhe uma coisa má ou boa e de repente sai de casa e vota Obama…

Luta Social disse...

mcgs07, compreendo o teu ponto de vista; é muito forte a sua aparência de bom senso, de razoabilidade, porém, na prática, o que vemos?
Os discursos propagandísticos servem para o voto (como muito bem tu disseste no final da tua intervenção anterior em relação ao Obama). Mas, para nós o que importa, não são os discursos, mas a prática. Assim, o princípio de fazer-se aquilo que está em nossas mãos fazer. Coisa simples, conceptualmente... mas inviabilizada por décadas de mediatização da coisa pública, da política espectáculo, etc.
Quando eu digo que o povo de meu país é socialista, tenho em conta as aspirações para maior redestribuição de riqueza, a aceitação do princípio (pelo povo, não pelos exploradores) «de cada um segundo as suas capacidades, a cada um segundo o seu trabalho» (o que implica uma versão de sociedade onde a contribuição para a sociedade determina o benefício que recebe da mesma).
Muitas coisas mais poderia dizer. As pessoas são espontaneamente igualitárias. Em condições particularmente difíceis como um desastre, incêndio, etc. elas auto-organizam-se espontaneamente, auxiliando no resgate de feridos, no salvamento de propriedade alheia, sem precisarem que ninguém lhes diga o que fazer. Sabem todas o que «devem» fazer em situações dessas.
Portanto, todos os povos são espontaneamente pela ajuda mútua, pela partilha, por compensar o trabalho de forma justa. Não apenas o meu povo, como todos os povos. O capitalismo, a gula por mais, a vertigem do consumismo, o chico-espertismo, a indulgência para com comportamentos fraudulentos na coisa pública, o egoísmo promovido em valor, etc, tudo isto são avatares do capitalismo.
Não há uma diferença ética entre o capitalista com apenas uma meia dúzia de empregados ao seu serviço e um grande capitalista com milhares de trabalhadores sob suas ordens. Ambos têm como lema «crescer (em lucros) ou morrer» portanto ambos querem abocanhar ainda mais mais valia, explorar ainda mais, obterem maior lucro. Isto torna o capitalismo completamente desadequado da época de real perigo de extinção em que vivemos.
Não tenho receitas para a passagem ao socialismo, duvido que alguém tenha (seriamente). O chamado «socialismo» foi uma enorme fraude, como eu já disse acima. Porém uns (os defensores do «socialismo de estado») e outros (os anti-socialistas, pró capitalismo) todos fingiram que acreditavam na ficção de que o capitalismo de estado erigido na URSS e depois noutros países era o socialismo «real». Isso foi uma enorme fraude, com consequências ainda hoje muito graves.
Quando digo que o socialismo está por fazer, estou a dizê-lo com conhecimento de causa das sociedades e experiências «socialistas» de estado.
Agora que sem uma viragem para o socialismo não temos salvação colectiva, não tenho dúvidas.
Manuel Baptista